Chegou então o homem, e colocou rótulos no seu corpo. Agora era dividida, segmentada por áreas de estudo: raiz, caule, folha, flor e fruto. Depois, podaram os seus galhos, especialmente os mais bonitos. Não pediram licença, nem deram explicação. Descobriu o motivo então: queriam que ela se curvasse, pois era muito alta, e ali passariam fios. E pouco a pouco, ela perdeu o prazer de existir. Ficou desiludida.
Foi buscar força com o sol e com a chuva, e deu a volta por cima. Deixou então suas flores crescerem, e embelezarem o “bairro”. Ela não conhecia a palavra “bairro”: ela era um universo no qual girava o mundo, e não somente uma localização no espaço. Ela também não chamava flor de flor, nem partes de si de partes. Ela era inteira, única, verdadeira, completa.
Assobiou então para as abelhas, os pássaros e os ventos. Queria ajuda para espalhar seus pólens, realizar seu sonho de fecundação. Dessa parceria nasceram milhares de frutos. Ali havia sementes, porções de vida em cada compartimento de fruto. E a vida foi e brotou nos campos, nos vales.
A planta era obstinada, impregnada do existir. Tinha personalidade.
Personalidade Por Paulo Bergsten Mendes
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